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Meme do caixão: o que explica o sucesso da piada fúnebre em plena pandemia?

Denise Tremura

08/04/2020 15h30

Nas últimas semanas, em que o mundo vive uma grave pandemia de coronavírus e boa parte das pessoas está em isolamento social, um fenômeno curioso tem ocorrido nas redes sociais: memes com a temática de morte. Entre os mais compartilhados no Twitter, o perfil E Morreu faz brincadeiras com vídeos de pessoas em situação de perigo seguidas de cenas com alguns rapazes carregando um caixão em uma coreografia animada.

Apesar do perfil do Twitter, a página Memepedia.ru vai mais longe e diz que a primeira postagem de rede social nesse estilo foi no TikTok, do usuário @lawyer_ggmu, em 26 de fevereiro. A edição cortando na hora H do "óbito" e entrando os dançarinos de caixão ao som de "Astronomia 2K19", do DJ Stephan F, já estavam lá, mas não exatamente como conhecemos.

@lawyer_ggmu##fyp ###foryou ##follow ##global♬ original sound – khvichagogava

Em 14 de março, também no TikTok, uma postagem trouxe o take mais famoso com os dançarinos encerrando o momento "fail".

@.minh_hieu♬ original sound – khvichagogava

Se por um lado as cenas causam uma certa estranheza, por outro a combinação dos vídeos de perigo com o cortejo fúnebre na sequência tem divertido muita gente. O conjunto de dançarinos é originário de Gana, na África, e faz coreografias em velórios profissionalmente.

"Quando o cliente vem até nós, perguntamos: 'Você quer algo solene ou um pouco mais de teatro? Ou talvez uma coreografia?"', diz Benjamin Aidoo, chefe dos carregadores de caixão, em documentário da "BBC".

Em Gana, as pessoas acreditam que a morte é apenas o início de uma nova vida, e essa passagem deve ser celebrada. O país é conhecido por ter caixões coloridos e inusitados, em forma de animais, carros e objetos de uso pessoal, como sapatos.

Mas por que temos tanta fixação com a morte e o que isso significa?

A psicóloga Talita Fabiano de Carvalho sugere que a morte é algo que nos é inerente enquanto seres vivos e, portanto, gera reflexões, fantasias, medos e curiosidades. "Os memes não nasceram com a cultura digital, mas encontraram nela alta performance de propagação e sucesso. Eles são apropriações de temas, sejam mais amenos, sejam mais complexos, além de serem de fácil compreensão e associação. Assim, tragédia e comédia são, pela história, fortes aliadas".

Mas como explicar formas tão diferentes de lidar com a morte? Enquanto alguns sofrem a dor da perda, outros celebram como apenas mais um rito de passagem.

De acordo com Carvalho, a morte é vista em diferentes contextos na cultura contemporânea. As religiões exercem um papel fundamental na construção dos rituais de passagem, seja para um fim pleno ou uma mudança para uma nova etapa da vida. "É importante refletir sobre como encaramos e, principalmente, como banalizamos a dor alheia".

De fato, algumas pessoas expressaram uma certa culpa em rir do meme.

Seja como for, flagrantes de suposta morte têm divertido a galera em casa na quarentena. São vários tipos de acidentes que geraram os posts virais.

Tem os distraídos…

Os desastrados…

Os de bicicleta…

Tem a vingança do mundo animal…

Acidentes de trânsito…

Atividades de lazer…

…e práticas esportivas.

Alguns casos tiveram simplesmente um final feliz.

Em tempos de pandemia, nossa relação com a morte fica mais evidente? Para a psicóloga, é uma situação nova que nos faz reagir diferente.

"Nossa capacidade de adaptação é bastante grande em casos que se repetem com frequência. Porém, em um contexto ainda indefinido e com informações que mudam diariamente, podemos perder nossa capacidade de reação. Não sabemos quem vai ter a doença e nem como vai lidar com o vírus. Além disso, os casos fatais são mais comumente noticiados e evidenciados, nos levando a acreditar que o fim está mais perto do que nunca. Essa sensação nos faz saber que somos seres vulneráveis e nos leva a reflexões sobre a vida e a existência", diz Carvalho.

Seja por fuga ou curiosidade, o tema "morte" sempre será motivo das nossas reflexões e (por que não?) memes na web. Afinal, ela é bem democrática e sabemos que mais cedo ou mais tarde, todos vamos ter que enfrentá-la.

Apenas esperamos que seja o mais tarde possível.

Fique em casa!

 

Sobre a Autora

Denise Tremura estudou Letras, é escritora, blogueira, leitora, twitteira, youtuber, palpiteira, web influencer engajada nas redes sociais e sempre atenta ao que vira tendência.

Sobre o Blog

O que acontece nas redes sociais, principalmente no Twitter. Um bate-papo sobre tecnologia, linguagem, algoritmo, engajamento, conteúdo, memes e tudo o mais que vai parar nos trending topics.